
O sábado começou de forma perfeita.
No quintal pairava o cheiro do fumo do churrasco, da relva acabada de cortar e da tarte de maçã que a vizinha tinha feito. Os homens discutiam sobre quanto tempo os bifes deviam ficar no fogo, as crianças corriam pelo jardim com pistolas de água e a minha filha Emma andava de um lado para o outro entre os convidados com uma coroa de papel na cabeça.
Ela adorava aquela coroa.
— As princesas nunca tiram as coroas — anunciou de manhã.
— Nem para dormir?
— Principalmente para dormir.
O meu marido Ryan estava junto ao grelhador, a tentar convencer o meu pai de que conseguia preparar a carne melhor do que ele. Aquela discussão já durava os onze anos do nosso casamento e, provavelmente, nunca teria um vencedor.
— Mais cinco minutos — disse Ryan, virando os bifes.
— Disseste isso há vinte minutos — observou o meu pai.
— A verdadeira carne não gosta de pressa.
— E os convidados com fome?
Sorri e fui buscar a limonada.
Foi nesse momento que a minha madrasta entrou no quintal.
Chamava-se Margaret.
Ela aparecia sempre em silêncio, como se tivesse medo de interromper a felicidade dos outros.
Mesmo depois de quinze anos de casamento com o meu pai, nunca tinha sentido que fazia realmente parte da nossa família.
Quando eu tinha dezasseis anos, a minha mãe morreu.
Dois anos depois, o meu pai conheceu Margaret.
Eu odiei-a antes mesmo de a conhecer.
Parecia-me injusto que alguém se atrevesse a sentar-se à nossa mesa, usar as chávenas da minha mãe e viver na casa onde ainda permanecia o cheiro do perfume dela.
Margaret nunca tentou ocupar o lugar da minha mãe.
Nunca.
Não mudou os móveis.
Não deitou fora as coisas da minha mãe.
Não me chamou filha.
Era sempre demasiado cuidadosa.
E talvez tenha sido precisamente por isso que se criou entre nós uma barreira que nenhuma das duas teve coragem de derrubar.
— Chegaste atrasada — disse o meu pai, aproximando-se do portão.
— Só um bocadinho.
— Como sempre.
Ela sorriu e entregou-lhe um saco com bolachas caseiras.
Mesmo agora, depois de tantos anos, parecia estar à espera de autorização para entrar.
Emma foi a primeira a correr na direção dela.
— Avó Maggie!
Margaret ajoelhou-se, abraçou-a e entregou-lhe uma caixa presa com uma fita azul.
Lá dentro estava um conjunto de chá de madeira.
— Vamos beber chá?
— Depois do churrasco.
— Isso não é justo — suspirou Emma.
As horas seguintes passaram como passam todos os encontros de família.
Com barulho.
Com confusão.
Com comida a mais.
Com crianças a mais.
Com demasiadas memórias.
Margaret ajudava a pôr a mesa, recolhia copos vazios e ajeitava a toalha que o vento insistia em levantar.
— Porque é que nunca descansas? — perguntei.
Encolheu os ombros.
— É um hábito.
— Podias simplesmente sentar-te.
— Assim sinto-me mais tranquila.
Isso também era muito típico dela.
Margaret estava sempre por perto, mas nunca no centro das atenções.
Quando o sol ficou insuportavelmente quente, as crianças começaram a pedir uma piscina insuflável.
Ryan montou uma grande piscina redonda no meio do quintal e encheu-a de água.
Poucos minutos depois, metade das crianças já brincava lá dentro.
Para minha surpresa, Margaret decidiu juntar-se a elas.
Tirou o casaco leve que vestia, ficando apenas com um simples fato de banho azul-escuro.
E foi nesse momento que tudo aconteceu.
De repente, Emma parou no meio do quintal.
Durante alguns segundos, ficou a olhar para Margaret.
Depois levantou a mão e apontou para a barriga dela.
— Mãe!
Todos se viraram.
— O que foi?
— O papá está escondido no coração da avó!
Fez-se silêncio.
E depois todos começaram a rir.
O meu pai quase se engasgou com a limonada.
— Espero sinceramente que não — disse Ryan, levantando as mãos.
Até eu não consegui evitar um sorriso.
— Emma, querida, não se aponta com o dedo.
Mas ela continuava a olhar para Margaret.
— Não, mãe. O papá está ali.
— O papá está junto ao grelhador.
— Não!
E, de repente, começou a chorar.
Não era aquele choro de criança por causa de um brinquedo partido.
Era um choro cheio de medo.
Agarrou-me a mão.
— Eu não estou a mentir! Olha!
Margaret, confusa, baixou o olhar.
Aproximei-me.
No início, não reparei em nada.
Depois ela virou-se ligeiramente.
E foi aí que vi.
Mesmo por baixo das costelas, junto à borda do fato de banho, aparecia uma parte de uma tatuagem antiga.
Um pequeno farol.
E ao lado dele, um sol sorridente desenhado de forma torta.
Senti o coração parar.
Porque eu conhecia aquele sol.
Ryan desenhava-o em todo o lado.
Em pequenos bilhetes.
Em postais.
Nos sacos de papel com o pequeno-almoço da Emma.
No espelho da casa de banho depois do banho.
Era o desenho dele.
O pequeno símbolo da sorte dele.
Levantei lentamente os olhos para o meu marido.
Ele ficou pálido.
Mesmo pálido.
— Ryan… — disse baixinho. — Porque é que o teu desenho está no corpo da minha madrasta?
No quintal ficou um silêncio tão profundo que se ouvia o estalar das brasas.
Ryan deu um passo em frente.
— Eu posso explicar.
Foram as piores palavras que ele podia ter dito.

Sempre.
Porque as pessoas só dizem isso quando aconteceu algo grave.
O meu pai levantou-se lentamente da cadeira.
Margaret apertou a toalha contra o peito.
— Não é aquilo que estás a pensar.
— Então o que é?
Emma aproximou-se de Ryan e disse:
— O papá desenha sempre este sol.
Ele suspirou profundamente.
— Sim.
O espanto apareceu no rosto de todos.
— Há vinte anos — começou ele — trabalhei como voluntário num centro de apoio para pessoas que tinham passado por cirurgias.
Franzi a testa.
Ele nunca me tinha contado isso.
— Organizavam lá sessões de arteterapia. As pessoas eram incentivadas a criar desenhos que as ajudassem a aceitar os seus corpos depois de doenças difíceis.
Margaret sentou-se lentamente.
— Eu lembro-me de ti — sussurrou.
Ryan olhou para ela, surpreendido.
— A sério?
— Tinhas sempre as mãos cheias de tinta.
Ele sorriu sem querer.
— Sim… isso parece mesmo comigo.
O meu pai olhava de um para o outro.
— Esperem. Vocês conheciam-se?
— Não — responderam os dois ao mesmo tempo.
Margaret passou os dedos pela tatuagem.
— Naquela altura fiz uma cirurgia complicada. Fiquei com uma cicatriz enorme. Não conseguia olhar para mim ao espelho.
O meu pai ficou imóvel.
— Nunca me contaste isso.
Ela sorriu tristemente.
— Porque não queria que tivessem pena de mim.
Ryan continuou:
— Numa das sessões pedi a todos que desenhassem um símbolo de esperança.
— E tu desenhaste um farol — completou Margaret.
Afastou a toalha.
Por baixo do farol estavam palavras quase impercetíveis:
**»Continua a brilhar.»**
Senti algo dentro de mim mudar.
Vinte anos antes, um jovem rapaz que eu um dia iria conhecer e amar tinha ajudado uma mulher que eu durante tantos anos não consegui aceitar.
Qual era a probabilidade de um encontro assim?
— Guardaste esse desenho? — perguntou Ryan.
Margaret sorriu através das lágrimas.
— Fazia-me lembrar que eu tinha sobrevivido.
Ninguém disse uma palavra.
Até as crianças ficaram em silêncio.
E, de repente, percebi que, pela primeira vez, eu não estava a olhar para ela como a mulher que se casou com o meu pai.
Mas como uma pessoa.
Assustada.
Sozinha.
Uma pessoa que também teve medo de perder tudo.
Mas uma pergunta continuava a incomodar-me.
— Então porque é que nunca me amaste?
Margaret estremeceu.
— O quê?
— Sempre mantiveste distância. Ias embora mais cedo. Evitavas as festas. Durante toda a minha vida pensei que me odiavas.
Ela ficou em silêncio por alguns momentos.
Depois disse algo que eu nunca esperaria ouvir.
— Porque eu tinha medo.
— De mim?
— De que nunca me perdoasses por eu não ser a tua mãe.
Senti um nó na garganta.
— Quando te vi pela primeira vez, estavas sentada nas escadas com a camisola verde da tua mãe. Choravas e seguravas uma fotografia dela. Naquele momento percebi que nunca poderia ocupar o lugar dela.
Baixou o olhar.
— Por isso decidi que, pelo menos, nunca te iria magoar.
Lembrei-me de todos aqueles anos.
Dos presentes embrulhados em papel castanho, porque era assim que a minha mãe fazia.
Dos bolos feitos com as receitas dela.
Das fotografias das minhas cerimónias escolares, onde Margaret aparecia sempre de lado.
Durante todo aquele tempo, eu confundi o cuidado dela com indiferença.
Mas talvez ela tivesse tido tanto medo quanto eu.
Emma aproximou-se de Margaret e sentou-se no colo dela.
— Avó, esse farol ainda funciona?
Margaret sorriu entre lágrimas.
— Acho que sim.
— Ainda bem — disse Emma, acenando seriamente com a cabeça. — Porque uma família precisa de luz.
Nessa noite, os convidados ficaram mais tempo do que o habitual.
Ryan voltou para junto do grelhador.
O meu pai, pela primeira vez em muitos anos, segurava a mão de Margaret.
E Emma desenhava com giz no caminho em frente à casa.
Quando me aproximei, mostrou-me o desenho.
Havia nele um grande farol.
Quatro adultos.
E uma menina pequena com uma coroa.
— O que é isto? — perguntei.
Ela sorriu.
— Família.
E, pela primeira vez em quinze anos, essa palavra deixou de me causar dor.







