
A villa à beira da falésia foi reservada com a esperança de recuperar o calor do nosso casamento. Mas o meu marido apareceu com os pais e a irmã e anunciou que, a partir daquele momento, eu deveria tratar de todos eles. Então, sem dizer uma palavra, peguei no telemóvel e fiz uma única chamada que mudou tudo.
— Mãe, pai e a Iris vão ficar connosco esta semana, Lídia. Espero que prepares um jantar decente e não encomendes comida outra vez.
Ele disse isso antes mesmo de sair do carro, enquanto o motorista descarregava quatro malas em vez de duas.
Fiquei parada à porta da villa que tinha alugado para celebrar o nosso décimo aniversário de casamento e senti o chão desaparecer debaixo dos meus pés.
Dez anos. Dez anos de casamento… e era assim que tudo terminava.
Chamo-me Lídia. Tenho trinta e seis anos e, há oito, dirijo uma rede de clínicas privadas de medicina estética que construí praticamente do zero, começando por um pequeno consultório nos arredores da cidade.
O meu marido, Vítor, trabalhava como gestor de departamento numa companhia de seguros. O cargo parecia importante, mas era eu quem pagava a prestação da casa, comprava os carros, financiava as férias e até os fatos que ele usava para trabalhar, para, como dizia, «causar uma boa impressão».
Durante o último ano, Vítor tornou-se frio e irritadiço. Repetia constantemente que eu «só vivia para o trabalho», que «até em casa era diretora» e que sentia falta de «uma esposa carinhosa e dedicada ao lar».
Pensei que fosse apenas cansaço. Rotina. Achei que ainda valia a pena lutar pelo nosso casamento.
Encontrei aquela villa numa falésia sobre o mar, com um terraço virado para o pôr do sol, piscina privada e um chef particular disponível durante toda a semana. Fiz a reserva dois meses antes e paguei tudo com as minhas próprias poupanças, separadas do dinheiro da empresa. Queria que fosse um tempo só nosso.
Imaginei-nos a caminhar juntos pela praia, a conversar finalmente sobre nós, e não sobre trabalho.
Mas, em vez disso, do carro saíram a minha sogra Regina, o meu sogro Artur e a irmã mais nova do Vítor, Iris, de vinte e três anos, com uma mala cheia de roupas para as suas «sessões de fotos à beira-mar».
— Surpresa! — disse Vítor, sem sequer sorrir, como se me estivesse a fazer um favor. — Os meus pais queriam há muito descansar junto ao mar, e a Iris acabou de terminar o namoro. Não te importas, pois não? A villa é enorme, há espaço para todos.
Fiquei em silêncio durante alguns segundos, tentando perceber se aquilo era uma piada.
— Vítor, isto era para celebrar o nosso aniversário. Só os dois.
Ele suspirou, irritado, como se eu estivesse novamente a exagerar.
— Lá estás tu outra vez. Não consegues passar um único dia sem fazer um drama? A família vem em primeiro lugar. Ou já te esqueceste disso porque só sabes trabalhar?
Regina entrou em casa sem sequer me cumprimentar.
— Espero que a cozinha seja boa. Não suporto comida mal preparada.
Iris deu uma gargalhada enquanto observava o interior.
— Uau! Uma piscina com vista para o mar! O cenário perfeito para as minhas stories.
Fiquei parada com a mala na mão, olhando para aquelas pessoas que, em menos de um minuto, tinham transformado o presente que preparei para o nosso casamento numas férias onde eu seria apenas a empregada.
— Já que estamos todos aqui — acrescentou Vítor, tirando os óculos de sol e olhando para mim com indiferença — podes tratar do jantar. Sabes bem que a minha mãe não come qualquer coisa. Além disso, talvez te faça bem passar uma semana a ser apenas esposa, e não diretora.
Senti algo partir-se dentro de mim.
Silenciosamente.
Mas de forma definitiva.
Olhei para ele com calma.
— Está bem — respondi. — O jantar haverá.
Vítor sorriu satisfeito, como se tivesse acabado de vencer uma grande batalha, e levou os pais para o terraço.
Eu peguei no telemóvel, afastei-me até à varanda com vista para o pôr do sol e liguei ao meu diretor de operações.
— Artur, fala a Lídia. Cancela todas as reservas feitas em meu nome: a villa, os transportes, o chef, as excursões… tudo. Mantém apenas aquilo que é exclusivamente para mim. E reserva um quarto individual num hotel da cidade para toda esta semana.
Guardei o telemóvel no bolso e virei-me.
Pelas portas abertas do terraço ouvia Regina a dar ordens aos cozinheiros, convencida de que tinham sido contratados para toda a semana.
Ela ainda não fazia ideia de que, dali a uma hora, não haveria chef, nem motorista, nem transporte pago por mim para o aeroporto.

E, pela primeira vez em muitos meses, já não sentia dor.
Sentia alívio.
Uma hora depois, descansava no meu quarto de hotel quando o telemóvel tocou.
Era Vítor.
Fiquei alguns instantes a olhar para o ecrã antes de atender. A primeira vontade foi ignorar a chamada. A segunda foi pensar que era melhor ouvir o que ele tinha para dizer do que passar a noite a imaginar.
— Estou?
— Lídia! Finalmente! — a voz dele já não era fria. Estava cheia de pânico e irritação. — O que fizeste? O chef foi-se embora, o carro nunca apareceu e estou aqui diante dos meus pais a fazer figura de parvo!
— Não fiz nada, Vítor. Apenas retirei aquilo que era meu. A villa foi paga por mim. O chef foi contratado por mim. O transporte também foi organizado por mim. Tu trouxeste três pessoas sem sequer me avisares e assumiste que eu iria tratá-las. Eu decidi outra coisa.
Fez-se silêncio.
Ao fundo, ouvia Regina a falar de um «escândalo» e a dizer que «essa rapariga sempre foi fria».
— Então deixaste-nos aqui? — perguntou ele, com a voz endurecida. — A minha mãe, o meu pai e a minha irmã? Tens noção da figura que isto faz?
— Tenho, sim. Parece apenas que um homem leva a família para o aniversário de casamento e espera que a esposa os sirva como uma empregada. Lamento que estejas desconfortável. Eu senti-me desconfortável durante os últimos dez anos e consegui suportar.
— Não podes fazer-me isto! É a minha família!
— Exatamente. A tua família. Por isso, que seja a tua família a decidir como vai amanhã para o aeroporto. Eu já não faço parte disso.
Ele começou a falar cada vez mais depressa, quase a gritar. Disse que eu «estraguei as férias», que «sempre fui demasiado orgulhosa» e que «uma esposa normal nunca faria uma coisa destas».
Ouvi-o durante mais alguns segundos e depois disse aquilo que deveria ter dito um ano antes.
— Vítor, uma esposa normal nunca deveria ter de escolher entre a própria dignidade e preparar o jantar para convidados que nunca convidou. Estou cansada de fazer sempre essa escolha. Boa noite.
Desliguei.
Um minuto depois, o telemóvel voltou a tocar.
O nome dele apareceu novamente no ecrã.
Coloquei o telefone em silêncio, deixei-o sobre a mesa de cabeceira e saí para a varanda.
A cidade estava cheia de vida: luzes, conversas e, ao longe, a música de um restaurante.
Fiquei ali durante muito tempo, sentindo que a confusão dava lentamente lugar à clareza.
No dia seguinte esperava-me uma conversa sobre o divórcio. Documentos, partilha de bens, perguntas sobre quem devia o quê a quem.
Mas, naquela noite, existia apenas uma chamada por atender que eu não tencionava devolver e um copo de vinho que bebi até ao fim, sem pressa, sem olhar para trás, sem voltar a dizer:
«Desculpa, querido, já vou.»
Pela primeira vez em dez anos, adormeci sozinha.
E dormi tão tranquilamente como se a villa na falésia, a discussão, a família que lá deixei e todos aqueles anos tivessem ficado do outro lado de uma porta finalmente fechada — uma porta que, pela primeira vez, pertencia apenas a mim.







