O cão correu atrás do trem onde estava a sua família, mas o destino o levou a um novo lar.

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A primeira vez que o vi foi na estação. Estava sentado ao lado de um banco, como se tentasse tornar-se invisível. Nos seus olhos não havia apenas espera — havia resignação e silêncio. Não olhava ao redor, apenas fixava o olhar na direção para onde, algumas horas antes, partira um comboio.

Sou reformado, moro no campo, numa casa construída pelo meu pai. Um velho fogão a lenha, uma macieira à janela, o jardim e o silêncio — essa tem sido toda a minha vida desde que a minha esposa partiu. O meu filho vive na cidade com a família, vem pouco. O meu consolo são o rádio e o quintal. E assim teria continuado, se não fosse o gerador avariado — a estufa precisava de eletricidade, então fui à cidade.

Tive de esperar quase duas horas pelo comboio de regresso. Comprei um pãozinho, uma nova máquina de café — às vezes é bom mimar-se — e sentei-me num banco. Foi então que percebi algo deitado debaixo dele. Era um cão velho — com o focinho grisalho, orelhas rasgadas e um olhar cansado.

 

Ao meu lado estava sentada uma mulher, que percebeu o meu interesse e disse baixinho:
— Ele apareceu aqui de manhã. Uma família — homem, mulher, crianças — entrou no comboio. E ele ficou. Parece que era deles. Correu atrás do comboio, saltava, ladrava… Depois atirou-se para os carris. Felizmente um polícia conseguiu segurá-lo a tempo.

— Ele… está vivo? — perguntei, embora já soubesse a resposta.

— Por pouco. Mas desde então não sai daqui. Fica sentado, à espera.

A mulher foi embora. E eu fiquei. Ele olhou para mim — e havia tanta saudade naquele olhar que não consegui ignorá-lo. Não o levei logo comigo — ainda tinha esperança de que alguém voltasse por ele. Mas passei a noite toda a pensar nele.

 

Na manhã seguinte, voltei. Estava exatamente no mesmo lugar. Trouxe comida, água, um cobertor velho e coloquei a tigela com cuidado à sua frente. Cheirou com desconfiança — e começou a comer. Devagar, como se não acreditasse.

— Queres vir comigo? — perguntei suavemente.

Simplesmente aproximou-se e sentou-se ao meu lado. E ficou.

Chamei-o de Ciszek. Não sei porquê, simplesmente pareceu certo. Ele não protestou. Como se o nome não importasse — o que importava era que alguém estivesse ali, e não o deixasse.

Desde os primeiros dias tornou-se a minha sombra. Seguia-me por todo o lado: para casa, para o jardim, para o galpão. Quando eu fechava a porta, sentava-se no limiar. Comia calmamente, dormia com atenção — sempre escutando. De manhã, ia até ao portão e olhava para longe.

 

Depois começou a uivar. Não como um cão zangado, mas baixinho, tristemente, como se conversasse com alguém que ficou longe.

Depois de uma semana, levei-o ao veterinário. Descobri que tinha cerca de dez anos, o coração fraco, articulações doloridas e uma pata que tinha sido partida. A vida não tinha sido fácil para ele.

Mas em casa ele ganhou vida. Um mês depois, latiu pela primeira vez — quando o carteiro chegou. Depois começou a vir ao portão para me receber. Comia com apetite. Às vezes simplesmente deitava a cabeça nos meus joelhos e respirava baixinho. Eu fazia-lhe festas nas costas e pensava como era bom termos encontrado um ao outro.

Às noites, sentávamo-nos na varanda. Eu — com o chá, ele — aos meus pés. Silêncio, ar puro, o som dos insetos. Paz.

— Vês, Ciszek — dizia eu — temos a nossa verdadeira história. Sem pressa, mas com calor.

 

Um dia, o meu filho veio com a família. Os netos corriam pelo quintal. Um deles aproximou-se do cão:

— Avô, quem é este?

— É o Ciszek. O meu amigo.

— E de quem era antes?

Fiquei em silêncio por um momento e respondi:

— Isso já não importa. O que importa é que agora está connosco.

 

Às vezes, à noite, Ciszek ouve o som distante de um comboio. Vai até ao portão, fica ali parado a olhar, e depois volta. Já sem inquietação — apenas com a pergunta: «E se, talvez?..». Eu sento-me ao lado dele e digo baixinho:

— Estás em casa. Está tudo bem. Estamos juntos.

Passou um ano. Ele está mais velho, já não ouve tão bem. Mas continua todos os dias à minha espera à porta. E eu penso, cada vez mais — talvez não fosse ele que esperava por mim, mas eu que esperava por ele. Porque com ele em casa, há calor. Simplesmente porque está ao meu lado. E isso é a verdadeira felicidade.

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