Eu a deixei por causa da minha ambição. Dez anos depois, o destino a devolveu para mim — meio morta, na estrada da Andaluzia. Você nem imagina como tudo acabou.

Interessante

 

Meu SUV prateado avançava lentamente pela estrada de terra enquanto eu olhava através do para-brisa para as colinas áridas. Eu havia saído de Sevilha ao amanhecer com a intenção de inspecionar terras que poderiam se tornar meu próximo investimento. Mas a cada quilômetro, eu me afastava não apenas da cidade, mas também da vida que havia construído com tanto esforço. Minhas mãos no volante estavam queimadas de sol, marcadas pelos anos de visitas aos campos.

Mãos que já haviam assinado contratos milionários, mas que nunca mais tocaram aquilo que realmente importava. Aos quarenta e dois anos, eu aprendera a medir o sucesso em números, propriedades, contas bancárias que cresciam sem parar. Mas naquela manhã, um vazio estranho ocupava meu peito — um tipo de vazio que dinheiro algum seria capaz de preencher.

O divórcio com Patrícia acontecera quase dez anos antes, e embora eu tentasse me convencer de que fora o melhor para nós dois, no fundo eu nunca deixei de me perguntar o que teria acontecido se tudo tivesse sido diferente. Ela era meu refúgio, meu lar, a única pessoa que me via como Ricardo — não como o empresário de sucesso que todos admiravam.

Parei o carro diante de uma pequena venda em um vilarejo esquecido por Deus, com apenas três casas e uma capelinha de pintura descascada. Um homem de chapéu e botas gastas apontou o caminho até as terras, dizendo para seguir pela estrada principal até ver um velho carvalho torto, e então virar à esquerda.

Assenti, comprei uma garrafa de água gelada e voltei ao carro, enquanto o sol do fim da manhã começava a aquecer ainda mais o cenário seco e empoeirado. O rádio mal pegava sinal por aquelas bandas, então desliguei o som e deixei que o silêncio me acompanhasse — junto com as lembranças que eu preferia manter bem enterradas.

Pensei em Patrícia — em seu riso fresco como água de nascente, em suas mãos delicadas enfeitando a mesa com flores, nas noites em que ela me pedia para deixar o telefone de lado e apenas estar presente. Mas eu sempre tinha mais uma ligação, mais uma reunião, mais um negócio que “não podia esperar até amanhã”.

 

Quando ela finalmente se cansou de competir com minha ambição e pediu o divórcio, achei que bastaria um pouco de tempo para esquecê-la. Mas o tempo fez o oposto — transformou o arrependimento em um fardo pesado que eu carregava comigo por toda parte.

A estrada ficava cada vez mais estreita e pedregosa, e as rodas levantavam nuvens de poeira que pairavam no ar quente. Eu dirigia com cuidado, desviando das pedras maiores e das rachaduras profundas deixadas pelo tempo. Ao longe, vi o carvalho de que o homem falara — uma árvore antiga e retorcida, desafiando teimosamente o passar dos anos.

Quando me preparava para virar à esquerda, algo chamou minha atenção adiante. Um cavalo marrom corria pela estrada, desgovernado, com as rédeas soltas batendo-lhe nos flancos enquanto relinchava em pânico. Pisei no freio e observei o animal passar com os olhos esbugalhados e a respiração ofegante.

Algo estava errado. Qualquer pessoa acostumada à vida no campo perceberia isso de imediato.

Cavalos não correm assim sem motivo — e rédeas soltas significavam que alguém havia caído… ou que algo muito sério acontecera. O instinto me dizia para seguir adiante e descobrir o que havia assustado o animal. Acelerei com cautela, examinando as margens da estrada em busca de qualquer sinal do que poderia ter ocorrido.

Cercas de arame enferrujado se estendiam de ambos os lados — algumas rasgadas, outras quase caídas, derrotadas pelo vento. Meu coração batia rápido, sem que eu entendesse bem por quê — como se o corpo pressentisse o que a mente ainda não compreendia.

E então, uns cinquenta metros à frente, percebi uma forma escura deitada no meio da estrada — uma figura que, à primeira vista, pensei ser um monte de roupas ou um animal ferido.

Desacelerei e aproximei-me devagar. A poeira baixou, revelando a silhueta de um homem. Ele estava de bruços, com um braço estendido e o outro dobrado num ângulo estranho, possivelmente quebrado. Vestia uma camisa clara, agora suja de poeira e suor, e um chapéu caído ao lado, meio coberto de terra.

Saí do carro e corri até ele. Meu coração batia tão forte que eu mal ouvia meus próprios passos.
— Ei! Consegue me ouvir? — perguntei, ajoelhando-me ao seu lado.

Nenhuma resposta. Apenas um leve movimento do peito indicava que ele ainda respirava. Virei-o com cuidado. O rosto estava arranhado, os lábios secos, os olhos semicerrados. Havia um pequeno corte sangrando na bochecha esquerda.

— Calma… está tudo bem — murmurei, mesmo sabendo que ele provavelmente não me ouvia.

Alguns metros adiante estava uma sela — antiga, pesada, com a correia rasgada. O cavalo certamente se desgovernara, e o cavaleiro caíra. Mas por quê? Não havia marcas de outro veículo, nem sinais de luta.

Peguei a garrafa de água no carro e molhei seus lábios. Ele gemeu, os olhos tremendo antes de se abrirem. O olhar estava turvo, confuso.
— Onde… onde ela está? — sussurrou com esforço.
— Quem? — perguntei, inclinando-me.

Ele tentou se levantar, mas caiu de novo.
— A menina… — murmurou. — Ela… lá…

Apontou com a mão trêmula em direção a um matagal, onde a poeira se erguia em redemoinhos leves.

Um arrepio percorreu minha pele. Levantei-me e olhei para onde ele indicava. Entre os arbustos secos, algo brilhou sob o sol — um reflexo metálico, talvez um pedaço de espelho ou uma joia.

Virei-me para o homem, mas ele já estava inconsciente.

Respirei fundo, abri o porta-malas, peguei uma lanterna e segui em direção ao matagal. O ar estava parado, silencioso demais — aquele tipo de silêncio que antecede a desgraça.

Cada passo soava alto sobre o chão pedregoso. O cheiro de grama seca se misturava a outro odor… adocicado, metálico, familiar. Sangue.

Foi então que vi as pegadas — pequenas, leves, descalças. Levavam até uma ravina.

Segui-as com cuidado. O terreno era irregular, coberto de pedras e galhos secos que estalavam sob meus pés. As marcas foram desaparecendo até sumirem à beira do barranco.

Apontei a lanterna para baixo. No meio das sombras e da poeira, algo se mexeu. Meu coração disparou. Respirei fundo e comecei a descer com cuidado, agarrando-me a raízes e ramos.

Ao alcançar o fundo, ouvi um som fraco — como um soluço. Apontei a luz e congelei. Debaixo de uns galhos estava uma menina. Parecia ter uns dez ou doze anos. O cabelo emaranhado, os joelhos sujos, o vestido rasgado. Os olhos bem abertos — assustados, mas vivos.

— Está tudo bem, não tenha medo — disse eu, tentando soar calmo. — Não vou te machucar.

Ela não respondeu, apenas apertou contra o peito um ursinho de pelúcia desbotado.

 

— Você estava com ele? — perguntei, indicando a direção de onde viera. — Com aquele homem?

A menina assentiu em silêncio. O rosto sujo mostrava rastros de lágrimas.

— Ele… caiu — murmurou. — O cavalo se assustou. Depois… alguém gritou.

— Quem gritou? — perguntei, tenso.

Ela olhou por cima do meu ombro, para o alto da ravina.
— Lá… — sussurrou. — Um homem… de casaco preto. Ele estava olhando. Depois desapareceu.

Um frio percorreu minha espinha. Virei-me e apontei a lanterna, mas, claro, não havia ninguém — apenas sombras e galhos balançando ao vento.

— Tudo bem — disse eu, embora já não acreditasse nisso. — Vamos sair daqui.

Ajudei-a a levantar e subi com ela pela encosta. Quando voltamos à estrada, o sol já se punha. O ar estava mais fresco, mas o silêncio continuava pesado, quase palpável.

O homem ainda jazia onde eu o deixara. Verifiquei o pulso — fraco, mas presente. A menina ajoelhou-se ao lado dele e sussurrou:
— Papai…

No momento em que eu pegava o telefone para chamar ajuda, o rádio do carro chiou — embora estivesse desligado.

Uma voz rouca e distorcida disse apenas uma palavra:
— Vá embora.

Fiquei imóvel, sem acreditar no que ouvira. O chiado continuou, e a voz repetiu, mais baixa, quase um sussurro:
— Vá… embora…

Olhei em volta. A estrada vazia, o horizonte avermelhado pelo pôr do sol, e ninguém à vista. Só o vento, arrastando-se devagar pela grama seca.

— Deve ser interferência — murmurei, tentando afastar o desconforto.

Disquei o número de emergência, informei o ocorrido e as coordenadas. Disseram que a ambulância estava a caminho, mas levaria uns quarenta minutos.

A menina permanecia ao lado do pai, segurando sua mão. Calada, o olhar perdido. Cobri-os com meu paletó para protegê-los do vento e me sentei no capô do carro.

O sol se escondeu atrás das colinas, e o céu ganhou tons de violeta profundo. Foi então que percebi uma velha placa meio encoberta por arbustos. Aproximei-me e iluminei-a com a lanterna. Mal se podia ler as letras:
“Finca La Encina” — o mesmo nome da propriedade pela qual eu viera até ali.

Fiquei parado, em silêncio. Tudo parecia coincidir de forma inquietante — a árvore, o homem, a criança, o aviso no rádio… Como se o próprio lugar tentasse me dizer algo.

Atrás de mim, ouvi uma respiração fraca. O homem abriu os olhos.
— Obrigado… — murmurou. — Não fique aqui… ninguém deve…

A voz se apagou, e ele fechou os olhos novamente.

Um momento depois, ao longe, ouvi o som da sirene. A ambulância se aproximava.

Quando entrei novamente no carro, os paramédicos já cuidavam da menina e de seu pai. Ela olhou para mim — rápida, mas intensamente, com uma expressão estranhamente madura.

— Ele tinha razão — disse ela baixinho. — Aqui não é lugar para ficar.

Não respondi. Apenas liguei o motor e segui pela estrada que se perdia na escuridão.

O sol havia desaparecido por completo, e no espelho retrovisor o velho carvalho parecia uma silhueta negra contra o céu avermelhado.

Então, pelo rádio, um último chiado — como um suspiro.

E silêncio.

Оцените статью