Chamei o canalizador para consertar a torneira — e apareceu o meu ex-marido, que não via há sete anos. Quando viu o meu apartamento, inesperadamente ofereceu-se para voltarmos a morar juntos.

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Acordei com um som estranho e intrusivo vindo da casa de banho. Primeiro pensei que estava a imaginar coisas. Mas alguns segundos depois ficou claro: a minha torneira nova, bonita e nada barata decidiu que hoje iria viver segundo as suas próprias regras. Um fio de água fino jorrou para o lado e espalhou-se com confiança na pia, ameaçando transformar a manhã numa pequena inundação.

O pânico apoderou-se de mim imediatamente. Saltei, agarrei as toalhas, fechei a água e sentei-me na beira da banheira, tentando não resmungar em voz alta. Nestes momentos, sente-se intensamente como o conforto que construímos durante tanto tempo é frágil.

Não sou daquelas mulheres que gritam por ajuda logo de imediato. Sei usar uma chave de fendas, montar uma prateleira — não é problema. Durante anos de vida sozinha, aprendi muitas coisas. Mas canalização é uma área onde é melhor não tentar fazer heroísmos. Um movimento errado — e não é só o meu apartamento que precisa de reparos, mas também o do vizinho de baixo.

Abri a aplicação de canalizadores, descrevi o problema e pressionei o botão “encomendar”.
Quando me ligaram de volta, a voz parecia estranhamente familiar. Por um instante algo mexeu dentro de mim, mas nessas situações não se analisa o tom da voz. Só se quer que o pingar da água pare. Dei o endereço e desliguei.

Uma hora depois, o campainha tocou.

Abri a porta — e fiquei literalmente congelada.

Na entrada estava o meu ex-marido. Márk. O homem que, há sete anos, arrumou as suas coisas, dizendo que eu me tinha tornado aborrecida, previsível e “demasiado pragmática”, e que se tinha mudado para uma mulher “jovem, leve e inspiradora”.

Desde então não nos tínhamos visto. O nosso filho cresceu. Não houve necessidade de pensão. Ele não enviava felicitações, não se interessava por como vivíamos. Na minha vida, ele simplesmente não existia.

E agora estava ali, na minha entrada, com uma caixa de ferramentas.

 

Envelhecido. Magro. Com o rosto grisalho e olhos cansados. Casaco de trabalho cheio de bolsos e sapatos gastos.

Eu estava no meu novo apartamento. Um apartamento que paguei sozinha. Que escolhi, renovei e organizei. Onde à noite, exausta, me atirava para o sofá, mas com a sensação de finalmente viver a minha própria vida.

— Anna? — estreitou os olhos. — És mesmo tu?

— Sou — respondi calmamente. — Entra, já que estás aqui.

Fiquei surpreendida com a minha própria calma. Por dentro tudo estava tenso, mas por fora mantinha-me serena, composta, como se um canalizador estranho estivesse à minha frente.

Entrou na casa de banho em silêncio, sem tentar puxar conversa. Trabalhou rápido e com confiança. Era visível que as suas mãos ainda se lembravam da profissão. Dez minutos depois, a água parou e o apartamento voltou ao silêncio.

— É acolhedor — disse, passando a mão pelo balcão. — Vejo que investiste muito.

— Quanto te devo? — perguntei.

Ficou constrangido e coçou a nuca.

— Ora, talvez possamos tomar um chá? Afinal, não somos estranhos.

Assenti. Eu também estava curiosa para ver aonde isto ia dar.

Na cozinha, parou e sentou-se lentamente à mesa, passando a mão pelo tampo como se quisesse verificar se era verdadeiro.

— Estás bem — disse, sem tentar esconder o ciúme.

— Normal — respondi. — Trabalho. Vivo tranquilamente.

— E a vida pessoal? — perguntou cautelosamente. — Voltaste a casar?

 

— Não. Estou bem assim.

Assentiu, tomou um gole de chá e de repente começou a falar. Longamente. Desordenadamente. Sobre como nada correu bem. Que a tal mulher “jovem e inspiradora” era demasiado exigente. Que a vida com ela se tornou uma competição constante. Que teve de se mudar. Que agora vive com a mãe e sobrevive com trabalhos ocasionais.

Eu ouvi.

Depois levantou-se, caminhou pela sala, olhou para o sofá, para a televisão, para as janelas.

— É acolhedor aqui — disse com outra entonação. — Sente-se que há uma dona de casa de verdade.

Virou-se para mim e nos seus olhos brilhou algo desagradável e pegajoso.

— Sabes, Anna — começou suavemente — pensei… talvez seja um sinal. Ambos estamos sozinhos. Tu vives sozinha, eu também. Para quê complicar?

Eu fiquei em silêncio.

— Podíamos recomeçar — continuou. — Esquecer tudo. Aprendi muito. Naquele tempo éramos jovens e tolos.

Parou por um instante e acrescentou:

— Talvez pudesse mudar-me para tua casa. Uma mulher precisa de um homem em casa. Um provedor. Ajudaria com a casa, nas reparações. Seria mais fácil a dois.

Levantando-me lentamente da cadeira, percebi de repente muito claramente o que sentia. Não ressentimento. Nem dor. Mas um espanto sincero sobre o quão convencidos alguns homens estão de que lhes é devido sempre algo. Que se pode desaparecer durante anos, voltar e simplesmente ocupar um lugar confortável.

— Márk — disse calmamente. — Leva a tua caixa de ferramentas.

— Como assim?

— Literalmente. Leva as tuas ferramentas e vai-te embora.

Olhou para mim, confuso.

— Falas a sério? Pensa bem. Sozinha é difícil. Quem vai ajudar? Quem vai proteger-te?

Olhei para ele e de repente vi claramente a diferença entre nós. Ele só procurava um lugar a que se agarrar. Eu, porém, já me mantinha firme há muito tempo.

— Adeus — disse, abrindo a porta.

Murmurou algo sobre ingratidão e personalidade difícil, mas eu já não ouvi.

Quando a porta se fechou, encostei-me à parede e respirei fundo.

No espelho, olhou para mim uma mulher que construiu a própria vida. Que não espera por um “provedor”. Que não precisa da permissão de ninguém para ser feliz.

Às vezes, os ex regressam exatamente quando finalmente tudo está bem contigo. Como se algo dentro deles tocasse um sinal interior.

E cada vez dizem a mesma coisa:

— Vamos recomeçar.

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