
O xeque despedia uma enfermeira atrás da outra, até que, um dia, uma jovem lhe disse a verdade.
— Eu disse para sair daqui!
Mais uma vez, o xeque tinha acabado de expulsar uma enfermeira do seu quarto.
Nos últimos meses, aquilo tinha-se tornado quase uma rotina diária para todo o hospital. As enfermeiras sucediam-se umas às outras. Algumas não aguentavam o seu temperamento difícil, outras pediam para ser transferidas para outro serviço e algumas desistiam logo após o primeiro turno.
O xeque estava gravemente doente e precisava de cuidados constantes, mas comportava-se como se todos à sua volta lhe devessem alguma coisa. Falava rudemente com os médicos, atirava documentos para o chão e era capaz de carregar várias vezes seguidas no botão para chamar os funcionários, apenas para depois dizer que já não precisava de ajuda.
Se uma enfermeira lhe trazia os medicamentos um minuto mais tarde, fazia um escândalo. Se tudo era feito a horas, encontrava sempre outro motivo para ficar descontente.
Já ninguém acreditava que aquele homem fosse capaz de mudar.
Depois de mais um conflito, a porta do quarto fechou-se e o xeque ficou sozinho. O diretor do serviço sabia perfeitamente que encontrar outra enfermeira não seria fácil.
Nesse mesmo dia, o trabalho foi oferecido a uma jovem chamada Sara.
Avisaram-na logo:
— O paciente é extremamente difícil. Nos últimos meses, ninguém conseguiu ficar aqui durante muito tempo.
Sara ouviu o médico em silêncio.
Sabia perfeitamente no que se estava a meter, mas não podia recusar. Alguns meses antes, o pai tinha perdido o emprego. A família deixara de conseguir pagar o empréstimo, e o banco já tinha iniciado o processo para tomar posse da casa.
Aquele emprego era muito importante para Sara.
Na manhã seguinte, respirou fundo e entrou no quarto.
O xeque nem sequer esperou que ela se aproximasse.
— Quem és tu? Sai do meu quarto!
Sara fechou calmamente a porta, pousou a pasta com os documentos sobre a mesa e começou a consultar o processo clínico, como se nem sequer tivesse ouvido as suas palavras.
Aquela atitude surpreendeu o xeque.
Normalmente, ao primeiro grito, as enfermeiras começavam a ficar nervosas, tentavam explicar-se ou saíam imediatamente. Mas aquela jovem limitava-se a cumprir calmamente as suas funções.
— Daqui a meia hora também vais embora, como todas as outras.
Sara levantou os olhos.
— Logo veremos.
O xeque sorriu com desprezo. Tinha a certeza de que, em breve, ela também não aguentaria.
Durante todo o primeiro dia, tentou fazê-la perder a paciência.
Pedia água e, quando ela lhe trazia um copo, dizia que já não a queria. Mandava abrir a janela e, alguns minutos depois, exigia que a fechasse. Várias vezes deixou cair coisas de propósito no chão e ficou à espera que Sara se irritasse.
Mas a jovem fazia sempre o seu trabalho com calma.
No final do dia, aquilo começou a irritá-lo ainda mais.
No dia seguinte, tudo se repetiu. E no outro também.
Depois de alguns dias, o xeque percebeu, inesperadamente, que, pela primeira vez, não conseguia fazer outra pessoa perder o controlo.
Na manhã do quarto dia, Sara trouxe os medicamentos, colocou-os sobre a mesa e perguntou calmamente:
— Posso fazer-lhe uma pergunta?
O xeque franziu o sobrolho.
— Pergunta.
— O senhor quer mesmo recuperar?
Ele ficou surpreendido.
— Claro que quero.
— Então porque é que, todos os dias, afasta de si as pessoas sem as quais lhe será difícil passar por este tratamento?
O quarto mergulhou no silêncio.
Sara não o acusava nem tentava dar-lhe uma lição.
Continuou:
— Li o seu processo clínico. Está escrito aqui que, antigamente, estava sempre rodeado de muitas pessoas. Mas agora quase ninguém da sua família vem visitá-lo. Nem os filhos, nem os familiares, nem os amigos. Só resta o pessoal do hospital.
O xeque não respondeu.

— Afasta até as pessoas que tentam ajudá-lo — continuou Sara calmamente. — Talvez pense que as pessoas só se interessam por si por causa do dinheiro. Mas, às vezes, alguém vai embora não por causa do dinheiro, mas porque já não quer continuar a suportar tanta falta de respeito.
Pela primeira vez, o xeque não encontrou resposta.
Sara virou-se e saiu do quarto.
Durante todo o dia, ele ficou em silêncio, a olhar pela janela.
As palavras dela não lhe saíam da cabeça.
Na manhã seguinte, quando Sara entrou com os medicamentos, pela primeira vez ele não levantou a voz.
Apenas perguntou baixinho:
— Achas mesmo que o problema está em mim?
Sara respondeu com sinceridade:
— Se, ao longo de alguns meses, mais de vinte enfermeiras se foram embora por sua causa, talvez o problema não esteja nessas vinte enfermeiras.
O xeque ficou em silêncio durante muito tempo.
Por fim, disse baixinho:
— Durante toda a minha vida, ninguém teve coragem de me dizer isso diretamente.
Depois daquela conversa, o seu comportamento começou a mudar gradualmente.
Não foi de um dia para o outro.
Por vezes, ainda perdia a paciência, mas agora conseguia perceber quando isso acontecia e pedia desculpa por iniciativa própria. As enfermeiras deixaram de pedir transferência, e os médicos repararam que o paciente estava mais calmo e que, finalmente, respondia melhor ao tratamento.
Passadas algumas semanas, o seu estado de saúde melhorou.
Antes de receber alta, o xeque pediu a Sara que fosse ter com ele.
Ela pensou que ele queria despedir-se.
Mas, em vez disso, entregou-lhe uma pasta.
Lá dentro estavam documentos do banco.
Sara olhou atentamente para eles e levantou os olhos, surpreendida.
Afinal, o xeque tinha ajudado a família dela a pagar a dívida por causa da qual poderiam perder a casa.
— Porque fez isso? — perguntou Sara.
Pela primeira vez, o xeque sorriu com sinceridade.
— Porque foste a primeira pessoa que me ajudou a ver não apenas a minha doença, mas também a mim próprio.
Sara não respondeu.
— Se tivesses ficado assustada e ido embora, como todas as outras — continuou ele — talvez eu tivesse passado o resto da minha vida a ser um homem que tem tudo, menos pessoas verdadeiramente próximas ao seu lado.
Aquele encontro mudou os dois.
Sara conseguiu salvar a casa da sua família, e o xeque compreendeu, pela primeira vez em muitos anos, uma coisa simples:
o dinheiro pode fazer com que as pessoas se aproximem, mas só o respeito e a bondade podem fazer com que elas queiram ficar.







