Minha irmã levava nossa mãe para passar o verão na casa dela todos os anos. Mas, certo dia, minha mãe me ligou, falando em voz baixa, e pediu que eu fosse buscá-la.

Interessante

 

Se naquela quarta-feira eu não tivesse atendido o telefone — o meu dedo já pairava sobre o botão para rejeitar a chamada, mal conseguia manter-me de pé depois de um dia inteiro a trabalhar na caixa do supermercado, e o número da minha mãe apareceu no ecrã às dez da noite — ainda hoje continuaria a achar que a minha irmã era a filha perfeita. E a minha mãe continuaria a tomar conta da casa e do cão dos outros, fingindo que estava tudo bem.

Mas eu atendi.

— Irenka… — ouvi um sussurro. Baixo, abafado, como se a minha mãe tivesse medo de que alguém a ouvisse. Só que não havia ninguém ali que pudesse escutá-la. — Irenka, podias vir buscar-me?

Naquele instante, algo se partiu dentro de mim.

A minha mãe nunca pede nada a ninguém. É a mesma mulher que, com um braço partido, fez uma panela de canja para dezasseis pessoas no almoço da Primeira Comunhão do neto, porque, dizia ela, os convidados iam chegar e não podia faltar sopa.

Tem oitenta e um anos, é viúva há nove, e, de repente, pedia-me ajuda… em voz baixa.

— Mãe, o que aconteceu? Onde está a Marta?

Fez-se silêncio. Depois ouvi um suspiro pesado, como se estivesse a reunir coragem.

— A Marta e o Klaus foram de férias. Para a praia. Na terça-feira faz uma semana.

Sentei-me num banco da cozinha. Lá fora, a cidade mergulhava lentamente na noite, enquanto eu tentava compreender o que acabara de ouvir.

A minha irmã Marta — quatro anos mais nova do que eu, sempre sorridente, sempre cheia de planos, sempre a repetir à mesa da família:

— Mãe, vem passar o verão connosco. Vais respirar ar puro. Para que ficas sozinha no apartamento?

— tinha deixado a nossa mãe de oitenta e um anos sozinha em casa e viajado com o marido para passar férias.

E não era a primeira vez.

Trabalho como caixa num pequeno supermercado do bairro. Há vinte e três anos que estou atrás do mesmo balcão, vendo os mesmos produtos e cumprimento os mesmos clientes.

Levanto-me às cinco da manhã e só regresso a casa depois das seis da tarde.

Não tenho carro — a Marta tem.

Não tenho uma casa com jardim — a Marta tem.

Não tenho marido; o meu deixou-me há onze anos. A Marta tem o Klaus, um homem de poucas palavras, mas com um bom salário e um carro com ar condicionado.

Foi por isso que todos os anos era a Marta quem levava a mãe para passar o verão em casa dela.

E ninguém alguma vez questionou isso.

Afinal, parecia tudo perfeito: uma filha com uma casa no campo convida a mãe idosa para descansar ao ar livre.

O que poderia haver de errado nisso?

Durante todos esses anos liguei à minha mãe todos os dias.

Ela falava-me da horta da Marta, dos tomates, das conservas.

Eu perguntava sempre:

— Mãe, estás bem aí?

E ela respondia:

— Estou bem, filha. Aqui é tudo tão tranquilo.

E eu acreditava.

Mas naquela quarta-feira disse-me algo que ficou cravado em mim como uma farpa.

— Irenka, não quero preocupar a Marta. Ela esforça-se tanto. Mas desde terça-feira que estou aqui sozinha. É preciso dar de comer ao cão duas vezes por dia, não consigo ir até à mercearia porque o joelho incha quando desço as escadas. E durante a noite tenho medo. Esta casa range tanto…

Não dormi nessa noite.

Às seis da manhã telefonei para o trabalho e pedi um dia de folga.

A minha colega aceitou substituir-me mal ouviu a minha voz.

Às oito apanhei o autocarro.

Era uma viagem de uma hora e meia, e durante todo o caminho fui ensaiando as palavras que diria à Marta.

Palavras duras.

Justas.

Precisas.

No fim, não disse nenhuma delas.

A casa da Marta e do Klaus fica na periferia da aldeia, atrás da antiga escola.

É uma casa bonita: fachada amarela, vedação nova e uma fila de tuias impecavelmente aparadas.

O Klaus construiu-a há quinze anos, quando foi promovido.

A Marta dizia sempre:

— Mãe, este quarto é teu. Este jardim é teu. Este é o teu lugar.

E a minha mãe acreditava, porque queria muito acreditar.

Quando abri o portão, o cão começou logo a ladrar.

Era um pastor alemão jovem e forte.

A minha mãe nem sequer tinha força para o passear.

O animal puxava-a como se ela fosse uma boneca de pano.

Encontrei-a na cozinha.

Estava sentada à mesa, com um casaco fino vestido e uma chávena de chá entre as mãos.

Olhou para mim como quem vê chegar alguém que a vem salvar de um incêndio.

Mas, ao mesmo tempo, com um ar de culpa, como se a minha presença fosse um erro.

 

— Não era preciso teres vindo — disse baixinho. — A Marta vai saber e vai ficar zangada.

— Mãe, a Marta deixou-te sozinha durante uma semana com um cão que nem consegues alimentar em segurança e foi de férias para a praia. É ela que tem de dar explicações, não tu.

A minha mãe abanou a cabeça.

Depois disse uma frase que nunca esquecerei.

— Irenka, tu não percebes. A Marta e o Klaus trabalham muito o ano inteiro. Merecem descansar. Eu só me aborreço um bocadinho. Hei de conseguir.

Hei de conseguir.

Oitenta e um anos.

Um joelho doente.

Uma casa isolada.

As paredes a ranger durante a noite.

Um cão de que ela tinha medo.

A mercearia mais próxima ficava a dois quilómetros, atravessando os campos.

«Hei de conseguir.»

Fiz-lhe a mala.

Dois casacos, uma saia e os medicamentos — uma caixa de sapatos cheia de embalagens.

Comprimidos para a tensão, para o coração, para o joelho, para a insónia.

Cada embalagem estava identificada com letras tremidas escritas a marcador.

No autocarro, a minha mãe adormeceu com a cabeça apoiada no meu ombro.

Era leve como uma pena.

Cheirava a sabonete de alfazema e a qualquer coisa antiga, irreversível.

Talvez seja esse o cheiro do tempo quando já resta tão pouco.

Só liguei à Marta nessa noite.

Atendeu ao terceiro toque.

Ao fundo ouvia-se música e o tilintar de copos.

— Olá, Irenka! Como estão?

— Trouxe a mãe comigo.

Seguiu-se um breve silêncio.

— Como assim? A mãe ia ficar connosco até ao fim do mês.

— Marta, não havia ninguém para cuidar dela. Vocês estavam na praia há uma semana.

— Mas a mãe sabia que íamos de férias! Foi ela que aceitou tomar conta da casa. Irenka, não exageres. A mãe é adulta, tomou essa decisão sozinha. Além disso, sou eu que a levo para minha casa todos os anos. Tu nunca te ofereceste.

E foi essa única frase que me fez parar.

Porque ela tinha razão.

Nunca me ofereci.

O meu apartamento é um pequeno estúdio no terceiro andar, sem elevador, com um sofá-cama e uma janela voltada para uma rua movimentada.

O que é que eu lhe podia oferecer?

Tomates na varanda em vez de um jardim?

O barulho dos carros em vez do silêncio?

Mas será que isso significava que a minha mãe tinha de ficar a tomar conta do cão deles?

— Marta, a mãe tinha medo durante a noite. Não conseguia ir às compras. Tinha medo do cão.

— Esse cão é meigo! A mãe conhece-o! Irenka, tu fazes sempre um drama de tudo. A mãe estava muito bem. Aposto que te ligou só porque estava aborrecida.

Não foi por estar aborrecida.

Foi por medo.

Mas a Marta nunca irá admitir isso.

Precisa de acreditar que é uma boa filha.

Que aquela casa, aquele quarto preparado para a mãe e aquele jardim cheio de tomates são a prova do seu amor.

E talvez até sejam.

Só que um amor que deixa uma mulher de oitenta e um anos sozinha durante uma semana com um cão grande tem uma fissura que a Marta não quer ver.

A minha mãe está a viver comigo há duas semanas.

Ela dorme no sofá-cama e eu durmo num colchão no chão.

De manhã fazemos chá.

Ela corta o pão em fatias muito fininhas, exatamente da mesma maneira que fazia quando eu era criança.

Às vezes sentamo-nos juntas na varanda.

A minha mãe olha para a árvore em frente ao prédio.

— É uma árvore bonita — diz. — Cheira quase como o jardim da Marta.

A Marta liga de poucos em poucos dias.

Fala com a mãe como se nada tivesse acontecido.

Pergunta pela saúde, pelos medicamentos, fala do trabalho.

Nem uma palavra sobre a praia, sobre o cão ou sobre aquele telefonema.

A minha mãe também não toca no assunto.

Como se as duas tivessem feito um acordo silencioso: se nunca mais falarem disso, então é porque nunca aconteceu.

Não sei o que vai acontecer daqui a um mês.

Não sei se a Marta voltará a convidar a mãe para passar o verão com ela.

Não sei se a mãe aceitará outra vez.

Provavelmente sim.

Porque assim é mais fácil.

Porque a Marta tem uma casa com jardim.

Porque a mãe não quer magoar ninguém.

Mas uma coisa eu sei com toda a certeza.

Da próxima vez, atenderei o telefone logo ao primeiro toque.

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