Eu só queria trocar as fraldas das minhas filhas gémeas recém-nascidas, mas, quando entrei na casa de banho feminina, uma das mulheres chamou a segurança.

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Três semanas após a morte da minha esposa, fui ao centro comercial com as nossas filhas gémeas recém-nascidas. Desde o início, aquele dia parecia pesado demais, como se tudo à minha volta fosse mais barulhento, mais claro e mais rápido do que eu conseguia suportar. Mas eu precisava cumprir o último pedido dela: comprar os pijamas amarelos de que ela tinha falado antes do parto. Convencia-me de que eram apenas compras comuns, embora, no fundo, soubesse que significavam muito mais. Era uma tentativa de preservar, nem que fosse, uma pequena parte da presença dela.

Fiquei sentado durante alguns minutos dentro do carro, enquanto as meninas dormiam no carrinho. Reproduzi a mensagem de voz que a minha esposa tinha gravado antes de tudo acontecer. A voz dela era tão tranquila, como se tivesse saído apenas por um instante e fosse voltar a qualquer momento, e não como alguém que tinha partido para sempre. Nem reparei quanto tempo fiquei a olhar para o vazio, até que uma das bebés se mexeu durante o sono.

— Mason, não te esqueças de comprar pijamas com fecho de correr — dizia ela na gravação.

Sorri discretamente, embora sentisse um aperto doloroso na garganta.

— E o que é que os botões têm de errado? — perguntei-lhe na altura, a rir.

— Às três da manhã vais odiá-los com todas as tuas forças. Confia em mim. — respondeu ela, também a sorrir.

Suspirei e, por instinto, ajeitei a aliança que, desde o dia em que ela morreu, nunca mais tirei do dedo.

— Está bem… — murmurei para mim mesmo. — Amarelos. Com fecho. Eu lembro-me.

Quando entrei no centro comercial, o barulho atingiu-me de imediato. Conversas, música, risos de crianças, carrinhos de compras a passar — tudo se misturava num único ruído constante. Empurrava o carrinho das bebés com extremo cuidado, como se qualquer movimento mais brusco pudesse fazer desmoronar o pouco que restava do meu mundo.

— O pai consegue. — dizia às meninas, embora, na verdade, estivesse a tentar convencer-me a mim próprio. — Compramos só os pijamas e voltamos para casa.

Durante alguns minutos, tudo correu bem.

Depois, uma das bebés começou a chorar.

Poucos segundos depois, a irmã juntou-se a ela.

Não era um choro normal. As duas gritavam tão alto que chamaram imediatamente a atenção de toda a gente.

— Já vos ouvi… calma… já resolvemos isto… — disse, inclinando-me sobre o carrinho.

Verifiquei a primeira fralda.

— Pois… bela surpresa… — murmurei, exausto.

A segunda chorava ainda mais alto.

— Tu também? Claro que sim… Está bem, meninas. Vamos.

Dirigi-me rapidamente à casa de banho mais próxima. A masculina estava quase vazia. Olhei à volta… e fiquei paralisado.

Não havia fraldário.

— A sério…? — sussurrei, incrédulo.

Um homem que secava as mãos virou-se para mim.

— Está à procura do fraldário? Já não existe. Retiraram-no.

— Onde fica a casa de banho familiar mais próxima? — perguntei.

— Do outro lado do centro comercial. Com esta multidão, uns vinte minutos.

Fechei os olhos.

— Elas não aguentam vinte minutos…

Pouco depois aproximou-se um segurança.

— A casa de banho familiar está encerrada para obras. E o fraldário da masculina também foi removido.

— Então o que é que eu faço? — perguntei, sem saber o que fazer.

— Na ala leste ainda há um, mas fica muito longe.

Olhei para as minhas filhas, que continuavam a chorar.

— Não vamos conseguir chegar lá…

Uma mulher que estava ali perto olhou para mim com frieza.

— O senhor não pode entrar na casa de banho das senhoras.

— Eu sei. — respondi calmamente. — Mas não tenho outra opção.

Ela soltou um suspiro de desagrado.

— Isso é problema seu.

Olhei para as minhas filhas.

— Não… neste momento, é um problema delas.

E entrei.

— Desculpem! — anunciei em voz alta, logo à entrada. — Tenho duas gémeas recém-nascidas. Só preciso de lhes mudar rapidamente as fraldas. Saio já a seguir.

Reinava o silêncio.

Deitei cuidadosamente a primeira bebé no fraldário.

— Aguenta só mais um bocadinho, meu amor. O pai já acaba.

De repente, a porta abriu-se com violência.

— O senhor não tem o direito de estar aqui! — gritou uma mulher.

Nem levantei os olhos.

 

— Estou quase a terminar. Só lhe peço um minuto.

— Não me interessa! Esta é a casa de banho das senhoras!

A bebé voltou a chorar.

— Eu compreendo-a. — respondi em voz baixa. — Mas não podia deixar a minha filha com a fralda molhada.

— Saia imediatamente!

Olhei para ela.

— Diga-me apenas para onde devo ir. Para onde levo duas recém-nascidas que precisam urgentemente de ser mudadas?

Ela tirou o telemóvel.

— Vou chamar a segurança.

— Faça isso. Só lhe peço que me deixe acabar primeiro.

Continuei a mudar a fralda.

— O senhor tem sequer noção do que está a fazer?! — gritou.

— Tenho. — respondi serenamente. — Estou a cuidar das minhas filhas.

Poucos minutos depois apareceu um segurança.

— O que se passa aqui?

A mulher falou imediatamente:

— Este homem entrou na casa de banho das senhoras!

Levantei a cabeça.

— Expliquei tudo logo à entrada. Na casa de banho dos homens não há fraldário. A familiar está fechada. Tenho duas gémeas recém-nascidas.

O segurança suspirou profundamente.

— Ele já tinha falado comigo. Fui eu que lhe disse que, nesta situação, não tinha outra alternativa.

A mulher ficou calada por um instante.

— Devia ter esperado!

— Esperar vinte minutos? — perguntei calmamente. — Com duas recém-nascidas?

Alguém que estava ao lado falou baixinho:

— Ele não está a fazer nada de errado.

O ambiente começou a mudar.

Pouco depois chegou o gerente da loja.

— Temos uma sala de apoio aos funcionários. Venha comigo. Lá terá mais privacidade.

Assenti.

— Obrigado. Eu só queria cuidar das minhas filhas em paz.

A mulher continuava ali, mas já não dizia nada.

Passado um momento, falou num tom muito mais baixo:

— Podia simplesmente ter ido embora.

Olhei para ela.

— Tentei escolher a solução que fosse melhor para as minhas filhas, e não a que evitasse uma discussão.

Na sala de apoio, finalmente fez-se silêncio.

Troquei as fraldas às duas meninas, abracei-as com força e, pela primeira vez naquele dia, consegui respirar fundo.

— Já está… meus amores… O pai está aqui convosco.

Apesar da dor, do cansaço e do vazio deixado pela perda da minha esposa, percebi que tínhamos conseguido ultrapassar mais um dia.

Mais tarde, comprei os pijamas amarelos.

Quando regressámos a casa, coloquei-os ao lado dos berços das minhas filhas.

Beijei a minha aliança.

— Conseguimos, Anna… — sussurrei.

Olhei para as gémeas, que dormiam tranquilamente.

E foi nesse instante que, apesar de toda a dor e de todo o cansaço, percebi que, juntos, tínhamos conseguido sobreviver a mais um dia.

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