O filho de um oligarca convidou de propósito uma garota pobre para o jantar, só para provocar a mãe. Assim que ela entrou, os convidados ficaram em choque — ninguém esperava por isso.

Interessante

 

Hoje Kirill estava muito ocupado. Já eram oito da noite, e ele ainda não havia escolhido um presente, comprado flores nem se trocado. Era o aniversário de sua mãe, Svetlana Eduardovna Krasilnikova. Por isso, muitos convidados já estavam reunidos. A festa seria realizada na casa de campo da família milionária. O jantar seria apenas para os familiares, enquanto as pessoas importantes, parceiros de negócios e jornalistas seriam convidados para o sábado.

Essas “reuniões de família” sempre irritavam Kirill. As amigas da mãe sempre começavam com perguntas inconvenientes: quando ele se casaria, quando daria herdeiros ao império dos Krasilnikov.

Mas o que mais o incomodava era o jeito como as inúmeras tias, amigas e casamenteiras tentavam superar umas às outras, elogiando suas sobrinhas e conhecidas como “a noiva ideal”.

Antes, elas importunavam sua irmã mais nova, Kamilla, de vinte anos, mas desde que ela começou a namorar o filho do editor Yeremov, deixaram-na em paz e elogiavam sua escolha. Agora, toda a atenção estava voltada para Kirill.

Ele tentava evitar as senhoras insistentes, mas hoje não conseguiria. Faltar ao aniversário da mãe significaria provocar sua longa mágoa.

Perdido em pensamentos, Kirill foi até uma floricultura. Uma pequena loja no mercado central — não era o tipo de lugar que ele costumava frequentar. Provavelmente ali não entregavam rosas quenianas ou tulipas holandesas todas as manhãs, mas não havia outra opção. As flores eram urgentes.

Lá dentro, percebeu que a loja estava vazia. Observando ao redor, viu que as flores eram boas — só faltava o vendedor aparecer.

Mas não havia ninguém.

— Boa noite! Tem alguém aí? — chamou ele na direção do depósito.

— Vendedor! Ei, quem está no balcão? Posso contar com você ou não? — sua voz saiu mais alta do que ele queria, e Kirill corou levemente de irritação. Normalmente, ele não falava assim.

Nas boutiques e salões onde costumava ir, vários funcionários vinham atendê-lo imediatamente. “Parece que hoje não é meu dia”, pensou o milionário.

Nesse momento, uma moça de avental azul-escuro saiu do depósito.

— Por que está gritando como se estivesse no mercado? Não podia esperar um pouco? — perguntou ela, rispidamente.

— Por que eu deveria esperar? O seu trabalho é atrair clientes, vender produtos e atender de forma que os compradores queiram voltar — retrucou Kirill. — O mercado de flores está saturado, a concorrência é enorme; posso simplesmente ir a outra loja.

— Então vá, por que gritar? — deu de ombros a moça. — Bem, se você não quer nada, eu vou indo.

Ela se virou para sair.

— Espere! Tá bom, estou realmente com pressa, não posso rodar a cidade toda. O que você tem para uma mulher de meia-idade? Para uma mulher bonita, elegante, rica? É o aniversário da minha mãe.

— Se é para sua mãe, quantos anos ela tem? Isso é importante na escolha das flores — disse a moça, com um tom profissional.

— Não sei — respondeu Kirill, confuso.

— Viu só — ela fez uma careta.

— Não, você não entende. Minha mãe esconde a idade. Acho que ela mesma já esqueceu quantos tem.

— Ah, nisso eu acredito — riu a moça, de repente sincera. — Minha avó Matryona também não sabia a própria idade, e nós, crianças, ríamos. Dizíamos que ela tinha dezesseis, mas ela já estava quase com setenta.

Kirill permaneceu sério.

— O que tem a ver com a sua avó? Minha mãe está ótima e simplesmente não quer envelhecer. Vamos escolher as flores.

— Rosas servem? — perguntou a moça, com um leve sorriso.

— Sim, rosas — suspirou ele. — Faça um buquê e eu vou embora. Estou atrasado.

— Eu não sei fazer buquês — encolheu os ombros ela. — Sou faxineira. A florista Antonina está há dois dias trancada no banheiro — dor de estômago. Então estou tomando conta da loja.

Kirill olhou para ela, atônito. Uma situação tão absurda ele ainda não tinha visto.

— Tudo bem. Faça o melhor que puder. Só amarre as flores com uma fita. Consegue? — tirou o lenço do bolso e enxugou a testa.

— Consigo — respondeu ela com entusiasmo, começando a montar as rosas com destreza.

Kirill a observava. Ela tinha cabelos bonitos, traços delicados, pele perfeita e olhos expressivos. Dedos longos, pulsos finos — parecia uma pianista.

— Que beleza! — pensou ele. — Talvez eu possa convidá-la hoje para fingir ser minha noiva? Pela aparência, ela facilmente passaria por uma aristocrata. A maneira como se porta, o cabelo, a beleza natural… Mesmo um vestido simples parece alta costura. Será que nossos esnobes acreditariam que ela é de família rica? Claro que sim.

— Como você se chama? — perguntou ele, de repente.

— Liza. Liza Snezhina.

— Nome e sobrenome bonitos.

— Ah, esse me deram no orfanato. Fui encontrada na neve, por isso “Snezhina” (do russo, “neve”) — riu ela.

— Como assim… na neve? — espantou-se ele.

— Não literalmente num monte de neve — explicou Liza. — Em um trenó. Fui deixada na porta do orfanato. Naquele inverno nevava muito, então ficou esse sobrenome.

Ela ficou em silêncio e olhou para o rosto surpreso dele.

— Que foi? Não sabe que às vezes deixam crianças assim?

— Sei — murmurou ele, meio confuso.

— Aqui está seu buquê — disse Liza, entregando uma composição bem bonita.

— Escuta, Liza, quer ganhar hoje uma quantia equivalente a alguns meses do seu salário? — sorriu Kirill.

— O quê?! Você é… um maníaco! Vou chamar a polícia! — ela agarrou um balde.

— Não, espere! Não quis dizer isso. Estou oferecendo dinheiro por um pequeno favor. Hoje à noite, você precisa fingir ser minha esposa. Só por algumas horas, na casa dos meus pais, depois eu te levo para casa.

— Por que você precisa disso? — perguntou Liza, pousando o balde.

— É que no jantar estarão meus parentes, e as tias vão começar de novo com as perguntas sobre por que ainda não me casei. Quero enganá-las: apresentar você como minha esposa, e assim me deixarão em paz.

Depois eu direi que foi uma brincadeira — vai ensiná-las a não se meterem na minha vida.

— E por que você ainda não se casou? — perguntou Liza, curiosa.

— Ah, você também? — riu Kirill. — Provavelmente porque ainda não encontrei o verdadeiro amor. Não é óbvio?

— Hm, pensei que para os ricos o amor não fosse o mais importante. Negócios, fusões de capital e tudo isso.

— Para mim, o amor vem em primeiro lugar, acredite — sorriu ele.

— Tá bom, eu ajudo — concordou a moça de repente, com leveza, surpreendendo Krasilnikov. — Só vou esperar a florista e me trocar.

— Liza, já estou atrasado, minha mãe deve estar preocupada. Você está apresentável? Tem algo para vestir além desse avental?

— Eu sempre me visto com cuidado — disse ela, ofendida.

— Não fique chateada, Elizaveta Snezhina. Tenho certeza de que você está sempre ótima, só quis saber. Aqui está o dinheiro e o endereço. Me dá seu número, vou te ligar — assim você fica com o meu contato também.

Resolva tudo, chame um táxi, e te espero na casa. Combinado? Ah, e à mesa vamos nos tratar por “você”, e tente me olhar com amor.

— Vou tentar, não se preocupe. No orfanato eu era a estrela do grupo de teatro — disse Liza.

— Sério? Então fico tranquilo — riu ele.

Durante todo o caminho até a festa, Kirill sorria, lembrando-se da conversa com a faxineira. Ele mesmo não entendia por que o pensamento nela o deixava tão feliz. Havia nela algo leve, algo que dava vontade de cantar.
Ele ligou o rádio e começou a cantar junto: “Você é o único, você é assim, eu te conheço… Não existe mais ninguém igual…”

Chegou bem na hora do jantar. O buquê foi muito elogiado — a tia Rita até comentou que um milionário italiano em Palermo certa vez lhe dera um parecido. Os convidados acenavam com aprovação e chamavam o arranjo de “luxo refinado”, enquanto Kirill mal conseguia conter o riso.

A conversa passou naturalmente para o casamento de Kamilla e, claro, para o “pobre” solteiro Kirill.

— Kirill, quando é que veremos o herdeiro do império dos Krasilnikov? — suspirou a tia Zina. — Enquanto ainda somos jovens, queremos cuidar do pequeno príncipe.

— De novo isso — pensou ele, mas apenas sorriu.

— Hoje em dia é difícil entender os jovens — acrescentou a tia Rita. — Não se encontra uma moça decente.

— Deixem o rapaz em paz! — bateu o punho na mesa o avô Boris Petrovich, general aposentado. — Já me cansei dessa insistência! Logo vocês mesmas precisarão de cuidados, velhas ricas!

— O senhor é o primeiro da fila, Boris Petrovich — retrucou a tia Rita.

— Pai, por favor, pare de brincar — irritou-se Svetlana. — Isso é falta de tato!

— E atormentar o menino com perguntas é delicado? — resmungou o avô. — Você, Rita, você, Zina, e você, Svetlana — continuam umas roceiras. Meu ajudante Shura Alyabyev dizia: “Pode-se tirar a moça da aldeia, mas a aldeia nunca sai da moça”.

Kirill e o pai intervieram apressadamente:

 

— Pai, não estrague a festa. Hoje é o aniversário da Svetlana.

— Então brindemos! — abriu os braços o avô. — Falemos da aniversariante, não do casamento do neto. Ele que se resolva sozinho. Aliás, quantos anos você tem, Svetochka?

— Quarenta e cinco — sussurrou ela entre os dentes.

— Pela quarta vez seguida? — riu o general.

— Vitaly, acalme seu pai — murmurou Svetlana.

— E quando conheceremos a noiva de Kirill? — perguntou em voz alta a tia Rita.

O avô franziu a testa, mas o neto o antecipou:

— Não é noiva. Mas a esposa — sim, por favor.

O silêncio caiu sobre a mesa. Até Kamilla tirou os olhos do celular.

— O quê?! Kirill, você é casado?! — exclamou ela.

Nesse instante, a campainha tocou.

— Sim, meus caros, sou casado. E esta é minha esposa. Ela chegou.

Ele levantou-se da mesa.

— Muito bem, vamos ver quem é a “princesinha da caixa de sapatos” — sorriu o avô. — Tenho certeza de que o neto escolheu a melhor moça.

As damas se entreolharam, e Svetlana revirou os olhos.

No portão, Kirill viu o táxi e… ficou paralisado.

— Liza, o que é essa maquiagem? E esses “colares de índia”? Duas horas atrás você estava normal!

— São joias caras! E a florista me maquiou.

— Por que está mancando? Meu Deus, não posso te apresentar à família assim!

— O sapato está grande, por isso manco.

Liza estava decepcionada. Ela queria tanto ganhar aquele dinheiro — amanhã teria folga e queria levar Sonya ao zoológico e comprar presentes…

— Tenho meus sapatos de salto na mochila, posso trocá-los.

— Rápido! Tire os colares. Vamos até a estufa — você lava o rosto. Sem maquiagem ficará melhor.

Dez minutos depois, entraram na sala de estar. Os convidados ficaram boquiabertos.

— Não tenha medo, estou com você — sussurrou Kirill, conduzindo-a até a mesa.

Ele a fez sentar-se ao lado e discretamente colocou em seu dedo um anel com um enorme diamante (de onde veio, ninguém sabia).

— Homem tolo, podia pelo menos ter visto o tamanho — amaldiçoou Liza em silêncio, tentando não deixar o anel cair. — Agora ainda tenho que tomar cuidado com essa pedra enorme…

— Esta é Liza. Minha esposa.

As bocas se abriram. Ninguém esperava tal reviravolta…

— Olá, minha querida! Que moça linda! — exclamou alegremente o avô, levantando-se para abraçá-la. Liza ficou sem jeito, e o velho general a beijou três vezes. — Sou o avô do seu marido, Boris Petrovich Krasilnikov. Pode me chamar de “vovô”.

— Liza, poderia nos contar onde conheceu meu filho? — perguntou Svetlana Eduardovna.

— Na loja — respondeu simplesmente a moça, mas Kirill lhe cutucou o cotovelo, para que ela não falasse demais.

— Ah é? Em qual loja exatamente? Eu nem sabia que meu sobrinho fazia compras — riu a tia Rita. Liza ficou completamente perdida. Não sabia como se comportar naquele meio, nem o que era considerado apropriado. A “falsa esposa” decidiu falar sobre algo que conhecia ao menos um pouco:

— Numa loja de arte. Eu comprava telas, e Kirill…

— Numa loja de arte?! — a tia Zina arregalou os olhos e estalava os lábios como um peixe fora d’água. — Kirill, o que você fazia lá?

— Eu… fui com um amigo. Ele procurava um presente para a filha, então entramos só um instante — improvisou Kirill, mas soava nada convincente. Liza resolveu ajudar — afinal, estava sendo paga por isso:

— Eu passava por acaso, olhei em volta, e nós esbarramos. Os pincéis caíram no chão, começamos a pegá-los, e de repente nossas mãos se tocaram. Nossos olhares se cruzaram, e senti como se uma chama acendesse dentro de mim. Kirill sentiu o mesmo. Ele logo percebeu que não poderia viver sem mim nem por um dia.

Krasilnikov puxava a mão de Liza e a chutava por baixo da mesa para fazê-la calar, mas ela já estava inspirada.

— Ele disse: “Moça, se eu soubesse pintar, faria seu retrato todos os dias. Mas como não sei, posso ao menos tirar uma foto com você?” Eu respondi: “Não, não, não sou uma estrela para posar”. Mas ele disse: “Você é uma estrela — apenas muito distante, desconhecida, mas a mais linda do universo”.

Todos ouviam de boca aberta, enquanto o avô apenas sorria satisfeito.

— Ah, que romântico! — exclamou a tia Rita, levando as mãos ao peito. — Liza, sabia que um dos meus admiradores…

— Mas Kirill não é “um dos admiradores” — interrompeu a “falsa esposa”. — Ele é meu marido, o único e amado. Não vemos mais ninguém ao nosso redor. Desculpem por ele não ter me apresentado antes — eu não estava pronta. Não conseguia acreditar que o melhor homem do mundo me amava. Agora eu o pinto todas as noites: quando ele volta cansado do trabalho e quando dorme encolhido, como uma criança.

— Que coisa linda! — suspirou a tia Zina. — Liza, você é artista? Tem sua própria galeria? Onde expõe suas obras?

— Chega — Kirill não aguentou mais. — Mãe, mais uma vez, feliz aniversário. Liza e eu precisamos ir. — Pegou-a pelo braço e a puxou para a saída.

As tias e a mãe de Kirill se levantaram às pressas para acompanhá-los:

— Não, Kirill, assim não pode ser! — protestou sua mãe. — O que as pessoas vão dizer? O herdeiro dos Krasilnikov casa-se sem festa, sem anúncio na imprensa!

— Liza, vem no sábado para a comemoração? Kirill, lembra — às sete horas, na “Casa Russa”? — apressou-se a tia Zina.

— Liza, quem são seus pais? Precisamos conhecê-los! — gritou a tia Rita enquanto eles saíam.

Finalmente, já no carro, Kirill arrancou e parou na primeira esquina para respirar fundo:

— O que foi isso, Liza?! — ele estava furioso. — Que loja? Que estrelas? Eu só pedi para você estar presente, não para montar um espetáculo! E agora o quê? Também teremos que levar você à recepção de sábado? Lá vai estar a imprensa toda!
— Não “pegar”, — Liza deu de ombros. — Você disse que depois contaria tudo. Só diga que foi uma brincadeira. Desculpe, eu me empolguei. Pensei: ninguém dá dinheiro de graça, é preciso trabalhar por ele.

— Ah, sim, — ele enfiou a mão no bolso interno e tirou um maço de notas. — Aqui, você merece.

— É muito dinheiro. Eu não posso aceitar, — disse Liza, arregalando os olhos.

— Só os tolos recusam dinheiro, — rosnou ele. — Você é tola?

— Não, não sou tola. Eu realmente preciso do dinheiro, — pegou as notas e colocou-as na bolsa. — Tchau, Kirill. Ou adeus. — Puxou a maçaneta da porta, mas ela não se abriu.

— Fique sentada. Eu te levo pra casa, — resmungou ele, e o carro arrancou.

Perto de uma casa descascada nos arredores da cidade, Kirill saiu educadamente e abriu a porta para a garota.

Liza saiu, apoiando-se no braço dele, mas de repente escorregou e agarrou-se à camisa dele. Acontece que ele tinha estacionado ao lado de uma poça.

Um segundo depois, ele estava na lama, e ela por cima dele.

— Você ficou maluca?! — gritou ele.

— Você estava em cima da poça! — retrucou ela.

— Aqui está escuro, eu não vi nada!

Eles se levantaram. O terno dele estava todo sujo.

— Venha comigo, — disse Liza. — A dona vai ficar brava, mas só por hoje não tem problema. Afinal, você não é apenas um homem, é o meu “marido por uma noite”.

Kirill não queria rir. Queria estrangulá-la por causa de todos os problemas daquela noite, mas mesmo assim a seguiu.

No apartamento, uma senhora idosa e severa os recebeu:

— Liza, por que tão tarde? Quem é esse? Está trazendo homens pra casa?

— Vovó Anya, este é o meu “marido”. Bem, não o marido de verdade, mas foi assim que nos apresentamos aos pais dele…

A mulher ficou boquiaberta:

— Você enlouqueceu?

— Anna Stepanovna, ele só precisa se lavar e ir embora.

A idosa fez um gesto com a mão:

— Que vá ao banheiro. Eu vou buscar as roupas do falecido Ivan Sergeevitch.

— Não precisa! — Kirill se assustou. — Eu me lavo e vou embora.

Uma hora depois, as roupas dele secavam na varanda, e os dois tomavam chá no quarto de Liza. Kirill olhava para as telas, os cavaletes, as tintas.

— Você é mesmo artista? — perguntou ele. — Posso ver seus trabalhos?

— Pode.

— Eu entendo pouco de arte, mas gosto. Vende uma pra mim?

— Você já me pagou bem. Não precisa.

— Mas essa aqui eu gostei muito, — apontou para uma tela. — Ficaria perfeita no meu escritório.

— Leva, — respondeu Liza sem emoção.

Kirill colocou a mão no bolso, mas lembrou que estava com roupas emprestadas.

— Não quero dinheiro, — disse a garota, balançando a cabeça.

— Liza, posso perguntar uma coisa? Por que você trabalha como faxineira se é artista? E, pelo que vejo, muito talentosa.

— Obrigada, — sorriu fracamente. — Mas quem precisa disso? Sim, vendo quadros na feira da fonte, às vezes recebo encomendas, mas… às vezes dá certo, às vezes não. Não dá pra viver disso. Os materiais são caros, e o tempo é curto. No mercado, pelo menos tenho um salário fixo, ainda que pequeno. A dona é boa, dá bônus.

Ela ficou em silêncio por um momento e depois acrescentou, hesitante:

 

— Tem mais uma coisa… Eu visito uma menina num orfanato. Sonechka. Ela tem seis anos. É muito sozinha.

— É sua parente? — perguntou Kirill em voz baixa.

— Não. Só… uma amiga. Eu ensino ela a pintar. Quero adotá-la, mas ainda não consigo.

— Por quê? Se for por dinheiro, eu posso ajudar.

— Não é por dinheiro. Eu não tenho casa própria, nem condições pra uma criança. Não sou casada… embora isso nem seja o mais importante. Mas estou trabalhando nisso. Por enquanto, só posso visitá-la.

Kirill olhou atentamente para ela:

— Você é órfã? Não tem família alguma?

Liza apenas assentiu.

— Mas você tinha direito a uma moradia do governo, não?

— Tinha, — sorriu amargamente. — Vendi pra ajudar uma pessoa com dívidas. E essa pessoa… desapareceu. Acontece. Todos me deixam, desde a minha mãe.

O riso dela soou forçado. Kirill a olhou em silêncio, sentindo ao mesmo tempo raiva e pena.

Liza se levantou e foi até a varanda:

— Suas roupas já secaram. Vá embora antes que os vizinhos acordem. Não quero ouvir fofocas sobre visitas noturnas de carros caros.

— Sim, claro, — disse Kirill, vestiu-se, pegou o quadro embalado e foi embora. Na porta, eles apertaram as mãos em silêncio.

No carro, ele ficou muito tempo olhando para a janela dela. Liza o encarou com irritação e fez um gesto para que ele fosse embora.

Em casa, Kirill dormiu até o fim da tarde. Foi acordado pelas ligações da irmã:

— Camilla: “O que está acontecendo?”

— Onde você está?! Me passa o número da Liza, preciso falar com ela!

— Fale, eu passo o recado.

— Tá brincando? Por que tenho que falar com sua esposa através de você?! — Camilla explodiu. — Onde ela está agora?

— Comigo! No banho! — mentiu ele, confuso. — Ela liga depois.

Desligou e correu até a loja onde Liza trabalhava. Comprou todas as flores e implorou à dona que a deixasse sair mais cedo.

— Você ficou louco? — indignou-se Liza no estacionamento. — Pra que tantas flores?

— Minha irmã quer o seu número.

— Então admita que foi uma brincadeira!

— Eu… só quero provocá-los um pouco, — murmurou ele, inseguro.

— Enganar as pessoas não é engraçado. Você prometeu contar a verdade.

— Eu vou contar! Mas antes fale com a Camilla. Ela quer um conselho.

— Tá bom, — suspirou Liza. — Mas em troca, me leva ao orfanato. Deixe as flores lá — pro pessoal.

No orfanato, Liza foi recebida como alguém da família. A velha funcionária do guarda-roupa, Matryona Ivanovna, apertou a mão de Kirill:

— Você é o noivo da nossa Liza?

— Pode-se dizer que sim, — sorriu ele.

— Não se preocupe! Eu a conheço desde que nasceu — não vou deixar ninguém machucá-la.

Kirill de repente percebeu que aquela era a mesma “vovó Matryona” de quem Liza havia falado quando se conheceram.

— Eu nunca a machucaria. Pode me contar sobre ela?

— Por que não? — respondeu a mulher, acomodando-se. — Escute…

No inverno, pouco antes do Ano Novo de 2004, encontraram um bebê recém-nascido na varanda do orfanato. Era noite profunda — embora fossem apenas seis da tarde, a escuridão já dominava tudo.

Matryona Ivanovna apressava-se para o trabalho: naquele dia haveria o concerto festivo e o “baile de máscaras” de Ano Novo. As crianças precisavam de cuidado especial.
A cerca do quintal estava completamente congelada, então ela foi pela entrada principal. Lá, viu um trenó com um embrulho em cima. Ao se aproximar, percebeu que era um bebê, enrolado em um cobertor infantil. Entrou em pânico — será que o bebê estava respirando? Sem perder tempo, deixou o trenó do lado de fora, pegou a criança nos braços e correu para dentro.

Descobriu que era uma menina saudável e forte, com apenas alguns dias de vida. Não havia bilhete, nem documentos. Nenhum sinal de que alguém voltaria.

Os funcionários do orfanato chamaram imediatamente a ambulância. Enquanto os médicos se preparavam para levar o bebê, Matrena pediu à diretora que dessem um nome à menina.

A enfermeira registrou a criança como Elizaveta Snejina. Seis anos depois, o destino uniu novamente os caminhos de Liza e daquela mesma mulher — a menina foi parar exatamente no orfanato onde havia sido encontrada.

A vida de Liza não foi fácil. Sem pais, viveu até os seis anos com uma família adotiva, mas após a morte do pai adotivo, sua madrasta se casou novamente, e o novo marido não queria saber de filhos que não fossem dele. Assim, Liza voltou ao orfanato.

Para a menina, foi um golpe duro. Ela se considerava parte legítima da família Elkin e mal se lembrava de como havia ido parar no orfanato pela primeira vez. Ninguém tinha coragem de lembrá-la de que fora abandonada ainda recém-nascida. Matrena esperava apenas o momento certo para contar a verdade.

Aos sete anos, Liza foi transferida para um lar familiar. Mas quatro anos depois, todas as crianças daquele lugar foram levadas embora, e os educadores foram presos. Liza voltou ao orfanato.

Depois disso, ela parou de falar — mas começou a desenhar. Notavelmente, desenhava como se tivesse estudado arte a vida toda. Rostos eram seu ponto forte — cada expressão parecia viva.

Somente quando completou dezoito anos, Matrena Ivanovna teve coragem de contar-lhe a verdade sobre sua origem. Liza ouviu atentamente, mas respondeu com amargura:

— Fui traída tantas vezes… O que muda mais uma?

— Você está enganada — respondeu a mulher. — Quando te encontrei, você estava enrolada em lençóis muito caros. Tecidos finos. Sua mãe claramente era de família rica. Talvez tivesse seus motivos.

Liza apenas sorriu:

— Se ela nunca me procurou, é porque eu não era importante.

Matrena quis dizer algo mais, mas só continuou depois:

— No dia seguinte, enquanto limpava a neve, encontrei perto do trenó um pano de seda branca. Bordado com fio púrpura estava o nome “Lev Kudritsky”. Guardei-o até hoje. Talvez seja seu pai… ou parente.

Mas Liza não demonstrou interesse. Não queria saber de quem a havia deixado. Mesmo assim, Matrena guardava o pano, na esperança de que um dia a menina quisesse conhecer seu passado.

Um jovem que estava com Liza sugeriu iniciar uma busca:

— Mostre-me o pano. Vou tirar uma foto e tentar encontrar alguma informação.

Matrena prometeu mostrar-lhe no dia seguinte.

Enquanto isso, Liza passava o tempo com amigos — iam ao zoológico, ao cinema, patinavam, tomavam sorvete. À noite, Kirill a levava para casa, e eles tiveram uma conversa terna:

— Quer começar um relacionamento comigo? — perguntou ele.

— Bilionários não namoram faxineiras — respondeu Liza, sorrindo.

— Então seremos os primeiros. Vamos quebrar estereótipos?

— Tudo bem, vamos tentar.

— Então, posso te beijar?

— Venha amanhã, veremos — piscou ela e saiu do carro.

Kirill foi embora feliz. Guardou cada minuto com Liza na memória. Era uma sensação nova — ele já tivera relacionamentos antes, mas Liza era diferente. Como uma melodia que só tocava para ele.

Na manhã seguinte, Kirill decidiu visitar Matrena Ivanovna. Ele prometera não apenas ajudar a procurar a família de Liza — o nome “Lev Kudritsky”, bordado no pano, havia chamado sua atenção. Ele se lembrou de que, no condomínio onde seus pais moravam, havia um artista com esse nome, e quis verificar se era coincidência.

Lev Mikhailovich Kudritsky era uma figura artística famosa, reconhecida na Rússia e no exterior. Vivia tranquilamente com a esposa, Ekaterina Nikolaevna, afastados da sociedade. Não tinham filhos, embora tivessem sonhado em ter uma família. Os vizinhos os viam raramente — gostavam de solidão e cuidavam de animais. Mantinham um abrigo e uma pequena casa para animais abandonados.

Kirill não sabia como começar, então mostrou a foto do pano e perguntou se o reconheciam.

Dez minutos após tocar a campainha, os seguranças o deixaram entrar. O artista o recebeu em seu ateliê. Depois de uma breve saudação, Kirill mostrou a foto.

— Eu reconheço este tecido — disse Lev Mikhailovich, tentando esconder a emoção. — Foi um presente de um velho amigo da Itália. Feito especialmente para mim, minha esposa e nossa filha. Hoje só restam dois desses. Onde o encontrou?

Kirill pediu um momento e contou toda a história — sobre o bebê encontrado, o orfanato, Liza e sua vida. O artista ouviu atentamente e empalideceu. Levantou-se, saiu da sala e voltou com a esposa e um retrato de uma menina.

— Esta é nossa filha Eva, — disse ele com dor. — Ela morreu há três anos. Perdemos ela quando viajou para a Turquia.

Eva fora uma garota difícil. Apesar da vida confortável, buscava algo mais. Vivia em constante busca de emoções — drogas, fugas, amizades perigosas. Aos dezessete, engravidou e desapareceu. Quando voltou, disse que o bebê havia morrido. Depois, sumiu novamente, até que anos mais tarde veio a notícia de sua morte, em um hotel à beira-mar.

Quando Kirill mencionou o ano de nascimento de Liza, o casal não teve dúvidas: a menina era sua neta.

— Eu a trarei até vocês — prometeu Kirill. — Mas primeiro precisamos prepará-la para o encontro.

A conversa com Liza foi difícil. Ela chorou muito, sem entender por que fora abandonada se poderia ter tido uma família amorosa. Mas Kirill a convenceu de que o passado não podia ser mudado — o presente, sim.

— Eles são boas pessoas — disse ele. — A avó cuida de um abrigo de animais, o avô é um artista famoso. Talvez você tenha herdado o talento dele.

— Talvez — respondeu Liza. — Mas que façam um teste, talvez não acreditem.

— Faremos, não se preocupe. Mas tenho certeza de que não vão duvidar. Você é muito parecida com sua mãe e seu avô.

No dia seguinte, Liza, Kirill e os felizes Kudritsky estavam sentados juntos à mesa. Para os idosos, era um dia que já haviam parado de esperar. Não desgrudavam da neta — fariam de tudo para recuperar o tempo perdido.

Liza apresentou Kirill como seu futuro marido e contou que queria adotar uma menina chamada Sônia. Os avós aprovaram o plano.

— É preciso autorização do conselho tutelar para o lar? — perguntou o avô.

— Claro — respondeu Liza.

— Então providenciaremos os documentos e faremos um quarto infantil. Bem grande!

— Tão grande assim? — surpreendeu-se a avó.

— Ora, eles ainda terão filhos — riu o avô, piscando para os apaixonados.

O casamento de Kirill e Liza tornou-se um acontecimento do qual toda a cidade falou. Os pais de Kirill adoravam a nora. E todas as amigas da mãe dele ouviam:

— Liza vem de uma boa família. Gente culta, aristocrata — nada comparado aos que não têm raízes.

Assim, a história da menina solitária, encontrada pouco antes do Ano Novo, terminou com um final feliz. O destino a conduziu de volta àqueles que sempre desejaram vê-la — à sua família, que a esperou por tantos anos.

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